domingo, 13 de maio de 2012

Minha mãe sempre foi bonita e engraçada... ainda hoje, mergulhada em névoas, de vez em quando vem, surge do seu mundo solitário e brinca, como se estivesse ainda contando um caso, uma história de fazer rir.
Ela sempre será para mim uma linda imagem de mãe boa, amiga, presente e acolhedora. Nós sempre fomos diferentes, ela às voltas com os vestidos e as comidas gostosas, e eu com os livros, os lápis e os cadernos. Entretanto, tinhamos um ponto em comum: a música. Ela me ninava, quando eu criança, cantando músicas de Dalva de Oliveira, Agostinho dos Santos, Orlando Silva: 
" esperança, morreste muito cedo, saudade, cedo demais chegaste...". Ela, do seu jeito me deu o gosto pela arte, me comprou um piano quando eu tinha quatro anos de idade, quando eu menina me acompanhava aos shows de Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Jerry Adriany, cultivou a semente que me fez, bem cedo, agregar o amor pela música de Chico, Caetano, Elomar, Tom, Vinicius, herança significativa na minha vida, na vida das minhas filhas e com certeza, também será na vida dos meus netos.
Hoje, Dia das Mães, quero compartilhar esta foto de Dona Elza, querida por todos os meus amigos, ela que sempre estava pronta para ouvir e brincar em qualquer situação, por maís séria que fosse. Ela era leve, acreditava na vida, acho que ainda acredita, poís a pouco mais de uma semana, num dos raros momentos que emerge, eu perguntei: Mãe, você é feliz? Ela sorriu e respondeu: Muito!
                                     13.05.2012

sábado, 24 de março de 2012

ELA








parte do prefácio do livro Ela - Roberto Gambini.



Depoís de anos de experiência como funcionário da Coroa Britânica na África do Sul, o jovem Henry Rider Haggard, aos 31 anos - época em que deve ter-se firmado seu contato com a fonte interior da criatividade - escreveu Ela. Corria o ano de 1887 e Carl Gustav Jung tinha apenas doze anos, mal começava a ler. Alguma relação entre os dois fatos? Sim, e muito interessante . Este livro que você está prestes a ler fez uma bela e duradoura empressão na mente intuitiva de Jung (que já o cita no inicio do século), que nele encontrou uma excelente descrição para o fugidio embora potentissimo fenômeno psíquico a que deu mais tarde o nome de anima. Temos aqui portanto não apenas uma bos história, dessas que transcritas hoje para a linguagem cinematográfica encantam multidões, mas um documento histórico muito saboroso para se pesquisar as fontes de idéias e imagens - e foram tantas - nas quais Jung encontrava paralelos para contextualizar e amplificar seus inúmeros insights. Só isto basta (mas há também o prazer da leitura/aventura) para justificar esta nova edição de Ela, na inspirada e competentíssima versão de Merle Scross...



Haggard escreveu muitas outras histórias... mas nenhuma terá jamais a importância e o charme de Ela devido justamente à impressão que causou em Jung.



Valeria a pena reproduzir as próprias palavras do pensador suíço a respeito deste livro para podermos avaliar com alguma precisão o que acabo de dizer. No volume 9/1 das Obras Completas, num ensaio intitulado "A Respeito dos Arquétipos e do Conceito da Anima", Jung diz o seguinte: "A Anima (...) não escapou à atenção dos poetas. Há excelentes descrições dela, que ao mesmo tempo nos falam do conteúdo simbólico em que o arquétipo usualmente se inscreve. Em primeiro lugar cito as novelas de Rilder Haggard: Ela, O Retorno de Ela e A Filha da Sabedoria". Alguns anos depois desse ensaio e certamente mais de meio século após a leitura da novela (em 1959, já no fim de sua vida), Jung escreve num prefácio de um livro de uma sua discipula: Rilder Haggard é sem dúvida o expoente clássico do tema da anima, muito embora este já fosse familiar aos humanistas do Renascimento (especialmente Francesco Colonna). Jung apreciaca o fato de não haver da história de Haggard nenhuma pretensão psicologizante, que acaba sempre por contaminar o relato com as indiossincrasias do autor. Aí temos portanto um critério valorativo para se detectar a importância de uma obra enquanto registro da fenomenologia do inconsciente coletivo: o registro sem mediações desnecessárias da fantasia que irrompe na mente do autor conta mais do que a forma e o estilo utilizados para captá-los...






então... esta é uma pequena parte do prefácio do livro Ela... Roberto Gambini fala sobre o livro, sobre o olhar de Jung sobre o livro e tece algumas consideraçòes sobre o conceito de Anima. Vale a pena ler o livro e também o prefácio de Gambini, que é maravilhoso.


sexta-feira, 9 de março de 2012

Viver o mito
Ana Sú - 08.03.2012

quem diria
que a vida
seria tão fiel
aos mitos

penso que ler um mito
dá a sensação de beleza
e de aventura

trafegar os caminhos
que o mito traz
é diferente
mais pungente

o que salva é a imaginação!

sábado, 19 de março de 2011

Face to Face - parte 02.

Poesia


Noite de Plantão
Ana Sú - 1997


acordo, no meio da noite, no plantão, cansada

e percebo que sonhei, mas não lembro o sonho

o hábito do trabalho me levanta

e eu, calma e decidida, assumo mais uma vez, viver


sorrio e olho o cartaz aqui no quarto

que diz: "a vida é mais emocionante sem cigarro".
foto - Ana Sú - 2002
minha varanda ao entardecer.

Jung, sua vida e sua obra.

Vou tentar passar um pouco da vida de Carl Gustav Jung, espero que gostem...


Carl Gustav Jung nasceu em Kesswil, aldeia pertencente ao cantão da Turgóvia, na Suíça, em 26 de junho de 1875. Kesswil situava-se à beira do lago de Constança (Jung com frequência morou perto de lagos durante a sua vida). Quando tinha seis meses seus pais mudaram-se para o presbitério do Castelo de Laufen, e quatro anos depois (1879) , passaram a morar em Klein-Hunig

en, nos arredores da Basiléia. Desta feita a casa era um prébitério do século XVIII. Nesta localidade Jung fez todos os seus estudos, inclusive o curso médico.
Aos 11 anos entrou no Ginásio da Basiléia. Ele lembra, no seu livro de memórias, que, nesta ocasião, sentiu pela primeira vez a sensação de ter " ingressado no grande mundo de pessoas bem mais poderosas que o pai, pessoas que moravam em casas grandes e imponentes, com filhos bem vestidos e com bastante dinheiro no bolso, que eram seus colegas de classe". Nesta época, ele relata ter percebido que era pobre, o que o fez olhar os pais com olhos diferentes: " comecei a olhar meus pais com olhos diferentes, compreendendo-lhes as preocupações e aflições. Tinha pena principalmente do meu pai e - fato singular - me condoía menos de minha mãe, ela parecia a mais forte." (Jung, Memórias, sonhos e reflexões, p.36).
Jung sofreu, durante a sua infância, de um eczema generalizado. Ele relacionava este problema às dificuldades conjugais dos pais. Em 1878 sua mãe permaneceu durante vários meses internada em um hospital da Basiléia. A doença fora causada, a seu ver, pelos problemas matrimoniais. Ele relata em suas memórias: " ... a longa ausência de minha mãe me preocupava intensamente, a partir desse momento a palavra amor sempre me suscitava desconfiança, Pai significava para mim integridade de caráter e fraqueza. Mais tarde esta impressão foi reconsiderada, acreditei ter amigos e fui decepcionado por eles; quanto as mulheres, embora desconfiasse delas, nunca fui por elas decepcionado." (Jung, MSR, p.22).
Sua infância, ele relata, foi cheia de sonhos, curiosas indagações, pensamentos e fantasias. No primeiro sonho lembrado (aos 3 ou 4 anos), ele se via numa campina, descobria uma cova profunda e descia uma escada que levava ao fundo desta cova. Embaixo encontrava uma porta fechada por uma rica cortina. Ele afastava a cortina e, em uma pequena sala, via um tapete vermelho onde centrava-se uma poltrona, um trono real. Sobre o trono havia uma forma gigantesca, com quase quatro ou cinco metros de altura, feito de pele e carne viva, acabando no tôpo de forma arredondada, com um único olho imóvel. Ele paralisava-se angustiado e, neste momento, ouvia a voz de sua mãe que dizia que aquele ser era o devorador de homens. Este sonho preocupou-o por muitos anos, e ele relata que só muito mais tarde foi descobrir que aquele ser era o falo, e muitos anos depois compreendeu que se tratava de um falo ritual: " este sonho de criança iniciou-me nos mistérios da terra. Houve, nessa época, de certa forma, uma espécie de catacumba onde os anos se escoaram até que eu pudesse sair de novo. Hoje sei que isto aconteceu para que a mais intensa luz possível se produzisse na obscuridade. Foi como que uma iniciação no reino das trevas. nessa época principiou inconscientemente minha vida espiritual. (Jung, MSR, p.28).
Durante a época de ginásio o colégio o aborrecia. preferia os seus próprios momentos em que podia brincar, pensar, estar livre na natureza e também ler assuntos que considerava mais interessantes que os enfadonhos estudos de álgebra, matemática, etc. Não compreendia porque estes assuntos eram tão óbvios para seus professores e colegas, enquanto para ele nada significavam.
Nesta época ocorreu um fato importante que, segundo Jung, seria o marco do seu destino. Foi em 1887, depois da aula. Estava ele esperando por um colega em uma praça, na saída da escola, quando um outro colega veio e repentinamente deu-lhe um soco. Ele caiu, bateu a cabeça e desmaiou. Neste momento passou a seguinte ideia em sua mente: " Não preciso mais ir a escola!" A partir daí, sempre que se falava na possibilidade dele ir a escola ou até mesmo em fazer as tarefas escolares ele apresentava uma síncope. Esta situação durou mais ou menos seis meses, o que o agradava muito porque ele usufruía a liberdade desejada: brincava, desenhava, corria, refletia ... Entretanto, tinha uma leve sensação de mal estar, tendo a impressão de estar fugindo de si mesmo. Isto perdurou até o dia em que ouviu uma conversa do pai, em que o mesmo queixava-se a um amigo da situação do filho. Relatava sua preocupação com o problema, com a possibilidade de ser epilepsia, de ser incurável e determinar um impedimento a uma vida de trabalho normal. A partir daí Jung sentiu a dura realidade: " Ah, então é preciso trabalhar! pensei. E a partir daí tornei-me uma criança sensata. Retirei-me cautelosamente, entrei no escritório do meu pai e, tomando uma gramática latina procurei aplicar-me num esforço de concentração. Ao fim de dez minutos desmaiei, mas pouco depois sentir-me melhor e continuei estudando..." (Jung, MSR, p.41). E assim ele foi, aos poucos. Algumas semanas depois retornou a escola e as crises não mais apareceram. " Foi assim que fiquei sabendo o que é uma neurose." (Jung, MSR, p. 41).


vamos continuar ... aguardem... rsrsrs

domingo, 13 de fevereiro de 2011