sábado, 2 de setembro de 2017

Jung fala...

Foto de Ana Sú -  Baía de Todos os Santos - Salvador - Ba.
Cada vida é um desencadeamento psíquico que não se pode dominar, a não ser parcialmente. Por conseguinte, é muito difícil estabelecer um julgamento definitivo sobre si mesmo ou sobre a própria vida. Caso contrário, conheceríamos tudo sobre o assunto, o que é totalmente impossível. Em última análise, nunca se sabe como as coisas acontecem. A história de uma vida começa num dado lugar, num ponto qualquer de que se guardou a lembrança e já, então, tudo era extremamente complicado. O que se tornará essa vida, ninguém sabe. Por isso a história é sem começo e o fim é aproximadamente indicado...

A vida sempre se me afigurou uma planta que extrai sua vitalidade do rizoma; a vida propriamente dita não é visível, pois jaz no rizoma. O que se torna visível sobre a terra dura um só verão, depois fenece... Aparição efêmera. Quando se pensa no futuro e no desaparecimento infinito da vida e das culturas, não podemos nos furtar a uma impressão de total futilidade; mas nunca perdi o sentimento da perenidade da vida sob a eterna mudança. O que vemos é a floração - e ela desparece. Mas o rizoma persiste. 

Prólogo de Memórias, Sonhos e Reflexões - Jung. 
Foto de Ana Sú - Sitio Grande Paineira

                       JUNG FALA...




... fiquei impressionado com o fato de que, apesar das aparências, deve haver uma vida oculta da mente manifestando-se somente no transe ou no sono. Uma pequena hipnose punha esta garota num transe do qual mais tarde ela despertava como se fosse de um sono. Durante o transe diversas personalidade se manifestavam; e, pouco a pouco, descobri que eu podia invocar por sugestão uma personalidade ou outra. 
Fiquei, é claro, profundamente interessado em todas estas coisas e comecei a tentar explicá-las, algo que eu não podia fazer porque tinha apenas vinte e dois anos na época e era muito ignorante nesse sentido. Mas eu disse a mim mesmo que deve haver um mundo por trás do mundo consciente e que era com este mundo que a garota estava em contato... (44).


... ou seja, a libido nunca surge do inconsciente num estado informe, mas sempre em imagens. Usando uma figura de linguagem, o minério tirado da mina do inconsciente é sempre cristalizado...  A partir daí fiquei convencido de que o material inconsciente tende a fluir em moldes definidos. (45).


                         Jung, C. G. - Seminários sobre Psicologia Analítica (1925)
                         Editora Vozes - 2014.


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Retornando ao Jung Ana

Fiquei um grande período sem aparecer, sem escrever aqui. O tempo e a vida nos solicita em múltiplas tarefas, escolhas, permitindo que, por vezes, uma névoa envolva lugares, pessoas e coisas queridas, trazendo um pseudo esquecimento, pois,  na verdade,  essas imagens ficam profundamente guardadas, inconscientes, mas vivas, morando nos seus lugares de origem, aparecendo nos sonhos, nas fantasias, sutilmente nas emoções,  nos humores.  
Entretanto, chega um tempo em que pedem passagem, pois, na medida em que sentem-se acolhidas no mundo dos sonhos, também querem participar da vida consciente. 
A proposta do Jung Ana é rondar imagens da alma,  buscando inspiração no pensamento junguiano, na arte, no mundo, nas pessoas, nos acontecimentos internos e externos, nas emoções. A proposta também é conversar, trocar impressões, conhecer, refletir. 
Bom estar de volta. 

domingo, 6 de outubro de 2013

Jung, um homem religioso?

Ontem, aqui em Salvador, aconteceu o último módulo do curso "Jung, um homem religioso?" Uma realização da Kairos, núcleo criado no sentido de reunir pessoas interessadas no pensamento de Carl Gustav Jung, assim como trazer para o nosso convívio estudiosos sobre o assunto, com o intuito de divulgar e compartilhar temas vinculados a Psicologia Analítica.
O curso foi excelente porque Marcos Fleury, o palestrante, professor membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, percorreu o tema do jeito que faz aquele que conhece o caminho e percebe o desejo e o compromisso do grupo em também caminhar. Isto fez valer a viagem! O professor quis ensinar de forma competente e amorosa, o grupo quis aprender, partilhar e responder também amorosamente.
Eu e Tatiana, que organizamos o encontro, agradecemos a todos que estiveram envolvidos neste percurso: a Marcos, pela generosidade em dividir seu conhecimento, e a cada um dos participantes, de forma especial: pela presença, pela partilha e pela confiança.

 
com carinho
 
Ana Suely e Tatiana
 

quinta-feira, 17 de maio de 2012



PENSANDO...

Quando eu penso em mim
eu penso em alguém sempre buscando

sempre tentando ser,
querendo algo que me solicita
e ás vezes me cansa...
quando eu penso em mim
eu penso que, apesar do esfôrço
eu pinto a vida de vermelho e amarelo
porém, sonho com o azul.

penso na possibilidade de acalmar o corpo e a mente
no desejo de também experimentar o dencanso...
                                                        Ana Sú

O filme e o tom...

O filme foi um engodo noturno
o que valeu foi o sol
e o dia morno na alma
quente no corpo...
                                Ana Sú

domingo, 13 de maio de 2012

Minha mãe sempre foi bonita e engraçada... ainda hoje, mergulhada em névoas, de vez em quando vem, surge do seu mundo solitário e brinca, como se estivesse ainda contando um caso, uma história de fazer rir.
Ela sempre será para mim uma linda imagem de mãe boa, amiga, presente e acolhedora. Nós sempre fomos diferentes, ela às voltas com os vestidos e as comidas gostosas, e eu com os livros, os lápis e os cadernos. Entretanto, tinhamos um ponto em comum: a música. Ela me ninava, quando eu criança, cantando músicas de Dalva de Oliveira, Agostinho dos Santos, Orlando Silva: 
" esperança, morreste muito cedo, saudade, cedo demais chegaste...". Ela, do seu jeito me deu o gosto pela arte, me comprou um piano quando eu tinha quatro anos de idade, quando eu menina me acompanhava aos shows de Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Jerry Adriany, cultivou a semente que me fez, bem cedo, agregar o amor pela música de Chico, Caetano, Elomar, Tom, Vinicius, herança significativa na minha vida, na vida das minhas filhas e com certeza, também será na vida dos meus netos.
Hoje, Dia das Mães, quero compartilhar esta foto de Dona Elza, querida por todos os meus amigos, ela que sempre estava pronta para ouvir e brincar em qualquer situação, por maís séria que fosse. Ela era leve, acreditava na vida, acho que ainda acredita, poís a pouco mais de uma semana, num dos raros momentos que emerge, eu perguntei: Mãe, você é feliz? Ela sorriu e respondeu: Muito!
                                     13.05.2012

sábado, 24 de março de 2012

ELA








parte do prefácio do livro Ela - Roberto Gambini.



Depoís de anos de experiência como funcionário da Coroa Britânica na África do Sul, o jovem Henry Rider Haggard, aos 31 anos - época em que deve ter-se firmado seu contato com a fonte interior da criatividade - escreveu Ela. Corria o ano de 1887 e Carl Gustav Jung tinha apenas doze anos, mal começava a ler. Alguma relação entre os dois fatos? Sim, e muito interessante . Este livro que você está prestes a ler fez uma bela e duradoura empressão na mente intuitiva de Jung (que já o cita no inicio do século), que nele encontrou uma excelente descrição para o fugidio embora potentissimo fenômeno psíquico a que deu mais tarde o nome de anima. Temos aqui portanto não apenas uma bos história, dessas que transcritas hoje para a linguagem cinematográfica encantam multidões, mas um documento histórico muito saboroso para se pesquisar as fontes de idéias e imagens - e foram tantas - nas quais Jung encontrava paralelos para contextualizar e amplificar seus inúmeros insights. Só isto basta (mas há também o prazer da leitura/aventura) para justificar esta nova edição de Ela, na inspirada e competentíssima versão de Merle Scross...



Haggard escreveu muitas outras histórias... mas nenhuma terá jamais a importância e o charme de Ela devido justamente à impressão que causou em Jung.



Valeria a pena reproduzir as próprias palavras do pensador suíço a respeito deste livro para podermos avaliar com alguma precisão o que acabo de dizer. No volume 9/1 das Obras Completas, num ensaio intitulado "A Respeito dos Arquétipos e do Conceito da Anima", Jung diz o seguinte: "A Anima (...) não escapou à atenção dos poetas. Há excelentes descrições dela, que ao mesmo tempo nos falam do conteúdo simbólico em que o arquétipo usualmente se inscreve. Em primeiro lugar cito as novelas de Rilder Haggard: Ela, O Retorno de Ela e A Filha da Sabedoria". Alguns anos depois desse ensaio e certamente mais de meio século após a leitura da novela (em 1959, já no fim de sua vida), Jung escreve num prefácio de um livro de uma sua discipula: Rilder Haggard é sem dúvida o expoente clássico do tema da anima, muito embora este já fosse familiar aos humanistas do Renascimento (especialmente Francesco Colonna). Jung apreciaca o fato de não haver da história de Haggard nenhuma pretensão psicologizante, que acaba sempre por contaminar o relato com as indiossincrasias do autor. Aí temos portanto um critério valorativo para se detectar a importância de uma obra enquanto registro da fenomenologia do inconsciente coletivo: o registro sem mediações desnecessárias da fantasia que irrompe na mente do autor conta mais do que a forma e o estilo utilizados para captá-los...






então... esta é uma pequena parte do prefácio do livro Ela... Roberto Gambini fala sobre o livro, sobre o olhar de Jung sobre o livro e tece algumas consideraçòes sobre o conceito de Anima. Vale a pena ler o livro e também o prefácio de Gambini, que é maravilhoso.


sexta-feira, 9 de março de 2012

Viver o mito
Ana Sú - 08.03.2012

quem diria
que a vida
seria tão fiel
aos mitos

penso que ler um mito
dá a sensação de beleza
e de aventura

trafegar os caminhos
que o mito traz
é diferente
mais pungente

o que salva é a imaginação!

sábado, 19 de março de 2011

Face to Face - parte 02.

Poesia


Noite de Plantão
Ana Sú - 1997


acordo, no meio da noite, no plantão, cansada

e percebo que sonhei, mas não lembro o sonho

o hábito do trabalho me levanta

e eu, calma e decidida, assumo mais uma vez, viver


sorrio e olho o cartaz aqui no quarto

que diz: "a vida é mais emocionante sem cigarro".
foto - Ana Sú - 2002
minha varanda ao entardecer.

Jung, sua vida e sua obra.

Vou tentar passar um pouco da vida de Carl Gustav Jung, espero que gostem...


Carl Gustav Jung nasceu em Kesswil, aldeia pertencente ao cantão da Turgóvia, na Suíça, em 26 de junho de 1875. Kesswil situava-se à beira do lago de Constança (Jung com frequência morou perto de lagos durante a sua vida). Quando tinha seis meses seus pais mudaram-se para o presbitério do Castelo de Laufen, e quatro anos depois (1879) , passaram a morar em Klein-Hunig

en, nos arredores da Basiléia. Desta feita a casa era um prébitério do século XVIII. Nesta localidade Jung fez todos os seus estudos, inclusive o curso médico.
Aos 11 anos entrou no Ginásio da Basiléia. Ele lembra, no seu livro de memórias, que, nesta ocasião, sentiu pela primeira vez a sensação de ter " ingressado no grande mundo de pessoas bem mais poderosas que o pai, pessoas que moravam em casas grandes e imponentes, com filhos bem vestidos e com bastante dinheiro no bolso, que eram seus colegas de classe". Nesta época, ele relata ter percebido que era pobre, o que o fez olhar os pais com olhos diferentes: " comecei a olhar meus pais com olhos diferentes, compreendendo-lhes as preocupações e aflições. Tinha pena principalmente do meu pai e - fato singular - me condoía menos de minha mãe, ela parecia a mais forte." (Jung, Memórias, sonhos e reflexões, p.36).
Jung sofreu, durante a sua infância, de um eczema generalizado. Ele relacionava este problema às dificuldades conjugais dos pais. Em 1878 sua mãe permaneceu durante vários meses internada em um hospital da Basiléia. A doença fora causada, a seu ver, pelos problemas matrimoniais. Ele relata em suas memórias: " ... a longa ausência de minha mãe me preocupava intensamente, a partir desse momento a palavra amor sempre me suscitava desconfiança, Pai significava para mim integridade de caráter e fraqueza. Mais tarde esta impressão foi reconsiderada, acreditei ter amigos e fui decepcionado por eles; quanto as mulheres, embora desconfiasse delas, nunca fui por elas decepcionado." (Jung, MSR, p.22).
Sua infância, ele relata, foi cheia de sonhos, curiosas indagações, pensamentos e fantasias. No primeiro sonho lembrado (aos 3 ou 4 anos), ele se via numa campina, descobria uma cova profunda e descia uma escada que levava ao fundo desta cova. Embaixo encontrava uma porta fechada por uma rica cortina. Ele afastava a cortina e, em uma pequena sala, via um tapete vermelho onde centrava-se uma poltrona, um trono real. Sobre o trono havia uma forma gigantesca, com quase quatro ou cinco metros de altura, feito de pele e carne viva, acabando no tôpo de forma arredondada, com um único olho imóvel. Ele paralisava-se angustiado e, neste momento, ouvia a voz de sua mãe que dizia que aquele ser era o devorador de homens. Este sonho preocupou-o por muitos anos, e ele relata que só muito mais tarde foi descobrir que aquele ser era o falo, e muitos anos depois compreendeu que se tratava de um falo ritual: " este sonho de criança iniciou-me nos mistérios da terra. Houve, nessa época, de certa forma, uma espécie de catacumba onde os anos se escoaram até que eu pudesse sair de novo. Hoje sei que isto aconteceu para que a mais intensa luz possível se produzisse na obscuridade. Foi como que uma iniciação no reino das trevas. nessa época principiou inconscientemente minha vida espiritual. (Jung, MSR, p.28).
Durante a época de ginásio o colégio o aborrecia. preferia os seus próprios momentos em que podia brincar, pensar, estar livre na natureza e também ler assuntos que considerava mais interessantes que os enfadonhos estudos de álgebra, matemática, etc. Não compreendia porque estes assuntos eram tão óbvios para seus professores e colegas, enquanto para ele nada significavam.
Nesta época ocorreu um fato importante que, segundo Jung, seria o marco do seu destino. Foi em 1887, depois da aula. Estava ele esperando por um colega em uma praça, na saída da escola, quando um outro colega veio e repentinamente deu-lhe um soco. Ele caiu, bateu a cabeça e desmaiou. Neste momento passou a seguinte ideia em sua mente: " Não preciso mais ir a escola!" A partir daí, sempre que se falava na possibilidade dele ir a escola ou até mesmo em fazer as tarefas escolares ele apresentava uma síncope. Esta situação durou mais ou menos seis meses, o que o agradava muito porque ele usufruía a liberdade desejada: brincava, desenhava, corria, refletia ... Entretanto, tinha uma leve sensação de mal estar, tendo a impressão de estar fugindo de si mesmo. Isto perdurou até o dia em que ouviu uma conversa do pai, em que o mesmo queixava-se a um amigo da situação do filho. Relatava sua preocupação com o problema, com a possibilidade de ser epilepsia, de ser incurável e determinar um impedimento a uma vida de trabalho normal. A partir daí Jung sentiu a dura realidade: " Ah, então é preciso trabalhar! pensei. E a partir daí tornei-me uma criança sensata. Retirei-me cautelosamente, entrei no escritório do meu pai e, tomando uma gramática latina procurei aplicar-me num esforço de concentração. Ao fim de dez minutos desmaiei, mas pouco depois sentir-me melhor e continuei estudando..." (Jung, MSR, p.41). E assim ele foi, aos poucos. Algumas semanas depois retornou a escola e as crises não mais apareceram. " Foi assim que fiquei sabendo o que é uma neurose." (Jung, MSR, p. 41).


vamos continuar ... aguardem... rsrsrs

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Lançamento em breve.



no prelo...



Poesia
Ana Sú
quando a poesia chega
eu penso diferente
sou menina
e os meus cabelos são dourados,
o sorriso é livre
os olhos brilham, o rosto é corado
pelo sol de cada manhã...
quando o verso aparece
eu ainda sou jovem
e as esperanças existem
a vida ainda é uma longa caminhada
e eu sonho com dias diferentes...
quando me envolvo nas palavras de uma estrofe
consigo ser mulher madura
mas cheia de desejos
e posso olhar a vida nua...
sem poesia eu me calo, me aborreço
não sou trilha, não sou relva, não sou chuva...
sou somente o trajeto do trabalho.
Agonia
Ana Barbara Neves
O tempo tem duas caras
Uma que leva, uma que traz
Eternamente instante
Sempre fugaz
O tempo, a cada momento.
Engana quem lhe quer mais
Controle desesperado
Arremedo de paz
O tempo, homem faceiro
Promete o que lhe compraz.
Vicia quando alegria
E em tédio se desfaz.
O tempo anda passando
Encontra desencontrando
Medida da morte
A vida
Cumprida agonizando.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Filmes que ví na semana:


Além da vida

Direção de Clint Eastwood, com Matt Damon e Cécile De France. Eu gostei pela delicadeza com que são tratados temas como amizade, fé e sofrimento diante das perdas inerentes à vida. Vale a pena ver.






Biutiful

Direção de Alejandro Gonzalez Iñárritu , com Javier Barden.

... ou vc ama ou odeia este filme...
eu amei

cenas fortes embasadas pelo trabalho fantástico de Javier Barden. Parafraseando James Hollis, autor junguiano, vc trafega pelos pantanais da alma nas imagens de dor e de total impotência das personagens diante das situações que a trama ressalta.
Eu não tenho conhecimento de cinema que me autorize a fazer comentários técnicos sobre filmes, porém partindo da minha paixão por esta arte, ouso dizer que é um filme que não deve deixar de ser visto.


Tetro





Direção: Coppola, com Vincent Gallo, Alden Ehrenreich e Maribel Verdú.


Quase não ia ao cinema ontem, sábado, entretanto meu genro e minha filha insistiram e eu acabei indo... que filme! Achei que depois de Biutiful demoraria para ver outro filme que, ao término, me deixasse respirando fundo e sem conseguir de cara levantar da cadeira do cinema.
Tetro fala de amor, ódio, ressentimento, vaidade, dor, loucura, redenção... e muito mais... A fotografia é linda, as cores, o jogo de luz, a música. Não dá para assistir e logo voltar para casa, tem-se que sentar, conversar, tomar uma taça de vinho, refletir e então, quem sabe, poder dormir.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A siesta - V. Gogh


Canção da escuta
Lya Luft


O sonho na prateleira
me olha com seu ar
de boneco quebrado.
Passo diante dele muitas vezes
e sorrimos um para o outro,
cúmplices de nossos desastres cotidianos.
Mas quando o pego no colo
(como as bonecas tão antigamente)
para avaliar se tem conserto
ou se ficará para sempre como está,
sinto sem estranheza
que dentro dele ainda bate
um pequeno tambor obstinado
e marca - timidamente -
um doce ritmo nos meus passos








segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Oitava turma de formação de analista junguiano da SBPA






de um jeito sério, mas também ingênuo e brincalhão
caminhamos, respondendo às nossas buscas
nos deparamos com as trilhas e as esquinas da alma
embalados nas imagens dos sonhos,
embasados no canto Caetano, que diz:
"... alguma coisa acontece no meu coração
que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João..."

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Poema do mês de novembro



No Elevador do Filho de Deus

Elisa Lucinda



A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida

Que eu já tô ficando craque em ressurreição

Bobeou eu tô morrendo

Na minha extrema pulsão

Na minha extrema-unção

Na minha extrema menção

de acordar viva todo dia

Há dores que sinceramente eu não resolvo

sinceramente sucumbo

Há nós que não dissolvo

e me torno moribundo de doer daquele corte

do haver sangramento e forte

que vem no mesmo malote das coisas queridas

Vem dentro dos amores

dentro das perdas de coisas antes possuídas

dentro das alegrias havidas.



Há porradas que não têm saídas

há um monte de "não era isso que eu queria"

Outro dia, acabei de morrer

depois de uma crise sobre o existencialismo

3o mundo, ideologia, inflação...

E quando penso que não

me vejo ressurgida no banheiro

feito punheteiro de chuveiro

Sem cor, sem fala

nem informática, nem cabala

eu era uma espécie de Lázara

poeta ressuscitada

passaporte sem mala

com destino de nada!


A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida

ensaiar mil vezes a séria despedida

a morte real do gastamento do corpo

a coisa mal resolvida

daquela morte florida

cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos

cheio do sorriso culpado dos inimigos invejosos

que já tô ficando especialista em renascimento


Hoje, praticamente, eu morro quando quero

às vezes só porque não foi um bom desfecho

ou porque eu não concordo

Ou uma bela puxada no tapete

ou porque eu mesma me enrolo

Não dá outra: tiro o chinelo...

e dou uma morrida!

Não atendo telefone, campainha...

Fico aí camisolenta em estado de éter

nem zangada, nem histérica, nem puta da vida!

Tô nocauteada, tô morrida!


Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa

não tem aquela ansiedade para entrar em cena

É uma espécie de venda

uma espécie de encomenda que a gente faz

pra ter depoís um produto com maior resistência

onde a gente se recolhe (e quem não assume nega)

e fica feito a justiça: cega

Depoís acorda bela

corta os cabelos

muda a maquiagem

reinventa os modelos

reencontra os amigos que fazem a velha e merecida

pergunta ao teu eu: "Onde cê tava? Tava sumida, morreu? "

E a gente com aquela cara de fantasma moderno,

de expersona falida:

- Não, tava só deprimida.



A imagem é uma pintura de Chagall


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Vermelho em festa


















































O grupo nasceu no espaço de Maria Teresa Ollero (Teca), psicológa que embasa o seu trabalho na sabedoria que traz inata dentro de si, na sua capacidade de unir pessoas, além da competência e técnica indiscutíveis. Era um grupo misto, homens e mulheres, cada um com seu próprio jeito de se colocar no mundo, seu estilo de vida e de pensar, caracterizando uma diversidade que se mostrava nas diferenças de idade, de desejos, de projetos. Entretanto, parecia haver uma marca comum em cada individuo que ali se reunia uma vez por semana, algo que não só era expresso em palavras nos encontros e discussões, também pairava no ar, de forma sutil, como uma música de fundo, aparentemente despretensiosa, mas na verdade marcante e presente. O pretexto era estudar um texto, um tema, mas o encontro se fazia maior, ou melhor, mais profundo, quando cada um podia se colocar, compartilhar, e a partir do outro melhor se conhecer.


O grupo de mulheres surgiu deste lugar, cria do grupo misto, há quinze anos atrás. A leitura do livro Mulheres que correm com os lobos, deu nome ao grupo: As Lobas. A sensibilidade e experiência de Clarissa Estés, autora do livro, aos poucos foi se expressando na vida de cada mulher do grupo, como um jeito de discutir o mundo, de perceber os sentimentos, de aceitar as diferenças. Passou a ser agradável compartilhar com o grupo o próprio dia a dia, as questões com o parceiro. com os filhos, o trabalho, os sonhos realizados, assim como as vivências de perda e desilusão.


Hoje, o grupo original ainda se reúne, outras integrantes surgiram, novos livros, outros textos, muita conversa, troca e cumplicidade. Traz um baú de histórias, de lembranças, de descobertas, de amizade. As reuniões ocorrem no Instituto Junguiano da Bahia, onde atuo como psicoterapeuta de formação junguiana. Cada uma coloca um tempero próprio no caldeirão alquimico em constante mudança e crescimento. Nanda, vale ressaltar, tem mantido o fogo acesso, não permitindo que o caldo desande, no momento em que está sempre atenta em chamar o grupo, quando o corre-corre da vida confunde o caminho. Teca também continua trabalhando com diversos grupos de estudos, semeando buscas, no seu ofício de acompanhar pessoas nos territórios da alma.

As fotos do mês de novembro mostra o grupo original na comemoração de quinze anos de caminhada. Nas outras fotos estão Magali, Eneida e Cristina que não puderam estar presentes na festa. Outras fotos mostram outras mulheres que se integraram ao grupo, os sorrisos demonstram que para cada uma a vida parece valer a pena, apesar dos altos e baixos do caminho. A proposta é viver sem perder o contato com as imagens da alma, utilizando a leitura, a fé, as conversas, a música, o cinema, as histórias da vida e os aspectos da natureza como fontes de reflexão e aprofundamento. E assim caminhamos, na dança da vida, qual uma loba esperta vasculhando os arbustos, bebendo água dos rios, tropeçando por vezes nas pedras das estradas, correndo nas pradarias, enfrentando desafios sem perder a possibilidade de brincar com a vida e fazê-la valer.



Segundo Clarissa Estés, os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm características em comum:


  • percepção aguçada

  • espírito brincalhão

  • elevada capacidade para devoção

  • são gregários por natureza

  • são curiosos

  • dotados de grande resistência e força

  • profundamente intuitívos

  • têm grande preocupação com os filhotes, seu parceiro e sua matilha.

  • têm experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação

  • têm determinaçào feroz

  • extrema coragem.